O Fôlego da Vida chegou ao Congresso Nacional
A ABRAF reuniu pacientes, parlamentares, médicos e empresas em Brasília para um dia inteiro de debate sobre o impacto do tabagismo na saúde pulmonar dos brasileiros.
No dia 27 de maio de 2026, o Congresso Nacional foi palco de um debate que veio de onde mais importa: dos pacientes. O simpósio "O Fôlego da Vida: Impactos do Tabagismo na Saúde Pulmonar", organizado pela ABRAF e pela deputada Flavia Morais, reuniu mais de 130 participantes presencialmente, e alcançou uma audiência muito maior por meio da transmissão ao vivo pela TV Câmara, com mais de 700 visualizações.
O evento nasceu de uma pergunta simples e urgente: como podemos fazer mais pelo direito de respirar no Brasil? Ao longo de um dia inteiro, essa pergunta foi respondida por quem faz leis, por quem trata pacientes, por quem desenvolve tecnologias e, acima de tudo, por quem vive com a doença no próprio corpo.
O programa foi dividido em dois momentos. Pela manhã, três mesas temáticas percorreram o panorama legislativo, as políticas públicas e o papel da iniciativa privada. À tarde, quatro palestras de médicos especialistas mergulharam nas doenças DPOC, asma, câncer de pulmão e tabagismo, cada aula abrindo espaço para o depoimento de quem viveu o impacto do tabagismo no próprio corpo.
A ABRAF contou com apoio de outras instituições neste evento: Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), Sociedade Goiana de Pneumologia e Tisiologia (SGPT), Sociedade Brasiliense de Doenças Torácicas (SBDT), Coalizão Cheios de Fôlego e Fundação ProAR.
O Tabagismo na Agenda do Legislativo
Dep. dr. Luiz Ovando, Dep. Flávia Morais e Dep. Gilberto Nascimento | Mediação: Débora Lima (ABRAF)
A primeira mesa do dia trouxe ao centro do debate um tema que é, para muitos pacientes, um mistério: como o processo legislativo funciona na prática? O que os deputados podem fazer e o que eles já estão fazendo pelo controle do tabaco no Brasil?
A mediadora Débora Lima, vice-presidente da ABRAF e ela própria paciente de doença respiratória grave, colocou na mesa as perguntas que chegam com mais frequência nos grupos de apoio. E os três parlamentares responderam a essas dúvidas.
A deputada Flávia Morais, anfitriã do evento, apresentou os projetos de lei de sua autoria e relatoria: a proibição total da fabricação e comercialização de cigarros eletrônicos, a notificação obrigatória do EVALI, doença pulmonar causada pelo vape, e a Política Nacional de Diagnóstico e Tratamento do Câncer de Pulmão. O projeto de lei que cria o Agosto Branco, mês de prevenção ao câncer de pulmão, já é lei, e foi celebrado pela deputada.
Os números que a deputada Flávia Morais trouxe são difíceis de ignorar: em 2024, pela primeira vez em quase duas décadas, o número de fumantes voltou a crescer: um aumento de 25% nas capitais. Mais de 174 mil mortes por ano, 477 por dia. E 26% dos fumantes começaram antes dos 14 anos.
O deputado dr. Luiz Ovando, médico com 50 anos de carreira, trouxe o olhar clínico para a discussão. Descreveu a falta de ar como o pior sintoma que um ser humano pode experimentar e defendeu que a lei, por mais necessária que seja, não funciona sem educação e mudança de comportamento. Relatou o caso de Isabel, paciente com insuficiência respiratória grave que viveu 20 anos com oxigenoterapia domiciliar porque alguém acreditou nela antes de desistir.
O deputado Gilberto Nascimento apontou uma contradição: o governo arrecada R$ 13 bilhões em impostos do cigarro e gasta R$ 153 bilhões com as consequências do tabagismo, um déficit de R$ 140 bilhões. Metade do cigarro consumido no Brasil é contrabandeado. E o vape, disse ele, já chegou às escolas das suas netas.
Os parlamentares afirmaram que seus gabinetes estão abertos para a sociedade. Enviar demandas, pedir reuniões, solicitar informações e eventos como este fazem parte do processo legislativo tanto quanto qualquer votação no plenário.
Viver com a Doença: a Jornada do Paciente
Débora Lima, vice-presidente da ABRAF e coordenadora do Programa de Advocacy para Pacientes.
Entre a primeira e a segunda mesa, Débora Lima contou, em primeira pessoa, o que é receber um diagnóstico de doença respiratória grave.
"O minuto do diagnóstico é profundo e visceral. Ele transforma a vida do paciente. E faz com que o paciente passe a não saber mais como existir a partir dessa nova perspectiva."
Em sua apresentação, ela mostrou as três frentes de atuação da ABRAF: o amparo direto aos pacientes que chegam desorientados após o diagnóstico, as comunidades de apoio onde pacientes podem se reconhecer em outros que já viveram o mesmo e entender, com quem sabe por experiência, que "esse exame não dói" ou "esse remédio vai te dar tais sensações", e o trabalho de advocacy, que transforma as histórias coletadas nesses encontros em argumentos para a formulação de políticas públicas
"Nós pacientes precisamos ser protagonistas nessas atividades", afirmou Débora, "e não apenas receptores da tomada de decisões." A ABRAF, explicou ela, está nos ambulatórios, nos corredores dos hospitais, na sala de espera, exatamente onde o paciente mais precisa.
O Que Está Sendo Feito? Ciência, Saúde Pública e Políticas de Combate ao Tabagismo
Natália Turri (Ministério da Saúde), Dra. Sandra Marques (SES-SP), Dra. Maria Enedina (SBPT), Dra. Fernanda Miranda (SGPT) e Major Vinícius Fernandes (CBMDF) | Mediação: Débora Lima (ABRAF).
A segunda mesa da manhã reuniu quem está no centro da ação: a coordenadora estadual de controle do tabagismo de São Paulo, a liderança da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, a presidente da Sociedade Goiana de Pneumologia, um representante do Corpo de Bombeiros Militar do DF e a representante do Ministério da Saúde. Juntos, eles traçaram um retrato honesto do que está funcionando, e do que ainda está longe de funcionar.
São Paulo como referência, e como espelho
A dra. Sandra Marques, que há 15 anos coordena o Programa Estadual de Controle do Tabagismo de São Paulo, trouxe um case reconhecido até fora do Brasil: o estado já possui quase 5 mil unidades de atendimento, ferramentas digitais integradas ao aplicativo do governo, uma linha de cuidado em fase piloto para câncer de pulmão e, em 10 meses de trabalho junto a câmaras municipais, aprovou 12 leis contra o tabagismo em diferentes municípios paulistas. Em 1º de junho de 2026, um novo módulo de Saúde Pulmonar será lançado no app GOV.BR, com rastreio de DPOC, asma e câncer de pulmão disponível para qualquer cidadão do estado.
Mas dra. Sandra foi também a voz mais direta sobre os limites do que é possível sem fiscalização real. O cigarro eletrônico é proibido no Brasil desde 2009, e continua sendo vendido abertamente. "Não adianta proibir se não punimos quem vende. Isso não é só uma pauta da saúde. É segurança pública, é justiça." Dra. Sandra revelou, com a naturalidade de quem sabe que isso importa: ela própria é tabagista em recuperação. E perdeu uma filha por doença respiratória.
O apelo da ciência médica
A dra. Maria Enedina Aquino Scuarcialupi, coordenadora da Comissão de Tabagismo da SBPT, foi direta: "A gente saiu do consultório para poder gritar. Nos ajudem. Queremos respirar bem." Ela descreveu um sistema que, após se tornar referência mundial no controle do tabaco, "baixou a guarda", e viu o tabagismo voltar a crescer enquanto o arsenal de tratamento encolhia. A vareniclina, medicamento que chegou a ter taxa de sucesso de 70% no abandono do cigarro, foi retirada do mercado em 2021 e ainda não voltou. O Brasil conta com o medicamento bupropiona e Terapia de Reposição de Nicotina (adesivo, goma/pastilha) e o trabalho diário de médicos que lutam com o que têm.
A dra. Fernanda Miranda, presidente da SGPT, destacou as iniciativas de Goiás —o estado já possui lei estadual de notificação compulsória do EVALI — e chamou atenção para o modelo de campanhas que funcionou no passado: "A geração mais jovem não conhece a Convenção Quadro, não sabe que o Brasil foi referência. A gente precisa de uma campanha nacional, maciça e duradoura. Isso existiu e funcionou."
O tabagismo que queima florestas
O Major Vinícius Fernandes, do Corpo de Bombeiros Militar do DF, trouxe uma perspectiva que raramente aparece neste debate: o descarte irregular de bitucas de cigarro é uma das causas dos incêndios florestais que assolam o Cerrado. A fumaça desses incêndios agrava quadros de asma, bronquite e DPOC, e aumenta a demanda de ocorrências do Corpo de Bombeiros. Ele confirmou também: já houve casos de pacientes em oxigenoterapia domiciliar que persistiram fumando e sofreram acidentes de incêndio, dado o caráter altamente inflamável do oxigênio.
O Programa Melhor em Casa e o cuidado que vai até a porta
Natália Turri, representando o Ministério da Saúde, apresentou o Programa Melhor em Casa — política de desospitalização com mais de 2 mil equipes no Brasil que, desde 2024, passou a incluir ventilação mecânica e reabilitação em seu escopo. Para pacientes com doenças respiratórias graves, isso pode significar a diferença entre ficar internado e receber cuidado em casa, com qualidade e dignidade.
Como a Iniciativa Privada Pode Contribuir
Ingrid Santos (GSK), Carolina Conte (Sanofi) e Marco Ruggiero (Chiesi) | Mediação: Débora Lima (ABRAF).
A última mesa da manhã abriu um debate que a ABRAF tem colocado no centro de sua estratégia: o papel da iniciativa privada vai muito além do medicamento. Como as empresas farmacêuticas podem contribuir para políticas públicas, para a educação em saúde, para a geração de dados e para a jornada completa do paciente?
Marco Ruggiero, presidente da Chiesi Brasil, laboratório especializado em doenças respiratórias com 50 anos de atuação no país, defendeu que o setor privado precisa ser parceiro ativo, não sujeito passivo. A Chiesi participou da COP30 com mesas sobre poluição do ar e doenças respiratórias e apoiou o acesso a medicamentos na Farmácia Popular. Ele também ressaltou a parceria estratégica de saúde pública, como o apoio ao PL 949/2024, da deputada Flávia Morais, que busca garantir diagnóstico e tratamento adequados à DPOC no SUS.
Carolina Conte, diretora de Public Affairs e Patient Advocacy da Sanofi, apresentou dados de um estudo realizado em parceria com a Sociedade Brasileira de Pneumologia: em 10 anos, 42 mil beneficiários do INSS com DPOC geraram a perda de 600 mil meses de trabalho: o equivalente a 51 anos de produtividade. O impacto direto no sistema previdenciário foi de R$ 1 bilhão. "O custo não é só do doente. É da família, da empresa, do país."
Ingrid Santos, da área de advocacy respiratório da GSK, trouxe o princípio que orienta seu trabalho: "estaremos aqui até que o problema não esteja mais". A empresa investe em campanhas de conscientização e no crescimento da sua equipe dedicada à representatividade do paciente dentro da própria companhia. "A gente precisa que as pessoas que trabalham com toda a cadeia entendam que há um paciente por trás de tudo que a gente faz. Uma pessoa que tem dificuldade de respirar."
A mesa terminou com o compromisso compartilhado das três empresas em apoiar a expansão do livro "O Estranho Caso do Doutor Poluidoso" para além de Goiás, onde já é distribuído em escolas públicas com aprovação da Secretaria de Educação.
Literatura como Ferramenta de Prevenção
Dr. Giuliano Miotto (escritor) | Parceria: SGPT — Sociedade Goiana de Pneumologia e Tisiologia
Antes das palestras da tarde, o simpósio fez uma pausa para celebrar algo que nasceu de uma pergunta: como falar de tabagismo com crianças de um jeito que elas realmente ouçam?
A resposta, desenvolvida ao longo de 5 anos pelo escritor Giuliano Miotto em parceria com a SGPT, foi um livro. "O Estranho Caso do Doutor Poludoso" não é uma cartilha nem um guia. É uma história, divertida, com personagens que têm asma, que vivem num mundo de poluição, que enfrentam escolhas. Um livro que a criança pede para ler de novo. Que passa para o irmão. Que fica na estante.
"A literatura tem alcance perene", disse Giuliano. A obra já tem aprovação da Secretaria de Educação de Goiás para distribuição em escolas públicas estaduais e, o evento foi o palco para anunciar a ambição de levá-la a todo o Brasil, com o apoio da iniciativa privada. A sessão de autógrafos aconteceu no hall do Auditório Freitas Nobre.
DPOC: A Doença Silenciosa que Rouba o Ar de Milhões
Palestrante: Dra. Fernanda Miranda, presidente da SGPT | Depoimento de paciente: Carla Comini
O período da tarde começou com a doença que tem um número perturbador: 70% das pessoas que têm DPOC no Brasil não sabem que têm. A doença pulmonar obstrutiva crônica é a quinta principal causa de morte no país, com o tabagismo presente em até 90% dos casos. E ainda assim, ela avança em silêncio.
Antes da dra. Fernanda Miranda começar a aula técnica, Carla Comini fez o seu relato de experiência. Ela tem 63 anos, e fumou por 32 anos cerca de uma carteira e meia por dia. O diagnóstico de DPOC veio dois anos depois que ela parou de fumar, quando a irmã recebeu um diagnóstico de câncer de pulmão já metastático. Infelizmente a irmã de Carla faleceu. Mesmo sem sintomas, Carla foi ao pneumologista com medo. E descobriu que tem DPOC.
Hoje ela vive bem, mas com corticoide inalatório diário, bombinha na bolsa, inalador portátil nas viagens e consulta semestral com pneumologista. Passou pela COVID-19 com 35% do pulmão comprometido e sobreviveu porque estava em acompanhamento. Gestora de uma farmácia comunitária em São Paulo há 10 anos, ela usa o espaço para orientar outras pessoas. E defende: consulta com pneumologista deveria fazer parte do check-up anual, especialmente em cidades como São Paulo, onde respirar já equivale a fumar sete cigarros por dia só pela poluição.
Apesar do acompanhamento médico, Carla sente o impacto da doença no cotidiano. "O banho, para mim, é um terror. Saio mais cansada do que entrei”, contou. E disse, fazendo também um alerta a todos os participantes do evento. "Sou a louca da vacina. Não perco uma. Acho que é o que vem mantendo a minha saúde."
A dra. Fernanda Miranda conduziu a parte científica com clareza e emoção. Pediu que todos na plateia fizessem um exercício: inspirar fundo, soltar um pouquinho de ar, e tentar respirar com o pulmão cheio. "É assim que o paciente com DPOC respira. Sem pausa. Sem alívio. 24 horas por dia." E encerrou com uma frase que resumiu o dia: "nenhuma pessoa deveria perder o direito de respirar por causa da dependência ao tabagismo."
Asma e Tabagismo
Palestrante: Dr. Ramiro Dourado, presidente da SBDT-DF | Depoimento: Fabíola Fraga | Vídeo: Sueli Rufino, embaixadora da ABRAF
A segunda palestra começou com uma surpresa. Fabíola Fraga é assessora do deputado dr. Luiz Ovando, e tem bronquite asmática desde que se conhece por gente. O deputado descobriu isso ao vivo, ali no evento. "Ela escondeu bem a asma", brincou.
Fabíola contou que na família havia muitos fumantes, e ela acabou entrando para o tabagismo muito nova. “Aprendi a duras penas o quanto o cigarro agrava as doenças respiratórias”. Ela falou também sobre o cansaço que limita a rotina e a dificuldade de manter atividade física enquanto amigas conseguiam correr.
A plateia assistiu também a outro depoimento de paciente. Por meio de vídeo, a embaixadora da ABRAF Suelen Rufino, de 37 anos, contou que foi diagnosticada com asma aos 2 anos e que a doença limitava o que ela podia fazer. “O tratamento da asma evoluiu, mas o impacto emocional permanece”. Suelen pediu algo simples e profundo: que a sociedade tenha empatia. Que quando alguém não consegue andar rápido, as pessoas esperem.
O dr. Ramiro Dourado trouxe dados que deveriam ser mais conhecidos. No Brasil, 7 pessoas morrem por dia por asma, uma doença com tratamento acessível. Quem morre não é o adolescente que corre para pegar a bombinha como no filme. Quem morre são mulheres de 60 anos, perdendo 20 anos de vida que poderiam ter vivido.
Ele também trouxe um dado do Reino Unido: para cada adulto que reduzia o consumo de cigarros usando vape, 80 crianças com menos de 18 anos começavam a fumar. O resultado foi a decisão britânica de proibir permanentemente a venda de cigarros eletrônicos para menores, com a idade mínima subindo um ano por ano calendário.
Em 2024, quase 30% dos jovens brasileiros já tinham contato com cigarros eletrônicos. Apesar desse dado preocupante, dr. Ramiro afirmou que os centros de cessação de tabagismo foram estruturados para atender fumantes mais velhos de cigarro convencional. Quando um jovem de 18 anos quer parar de usar vape, ele chega a um grupo com pessoas de 60 anos fumando cigarro de palha. "Voltei do congresso americano sem resposta", disse o médico. "Porque a grade sobre como tratar crianças usuárias de vape foi frustrante, a gente ainda não tem."
Câncer de Pulmão e Tabagismo
Palestrante: Dra. Lícia Zanol, pneumologista e especialista em cuidados paliativos (SBDT-DF / SBPT) | Vídeo: Yane Cardin, paciente advocate
O vídeo que abriu a terceira palestra foi gravado na Bahia, por uma mulher de 57 anos chamada Yane Cardin. Ela fumava dois maços por dia desde os 18. Uma tosse persistente em 2015 a levou a oito otorrinos, dois alergologistas, dois pneumologistas. Todos disseram sinusite, mesmo sabendo que ela era fumante. O diagnóstico correto veio quando ela mesma procurou um oncologista: câncer de pulmão com metástase óssea.Yane vive com o câncer sob controle há quase 11 anos.
O que ela pede é que o estigma do fumante seja desmistificado, porque esse estigma faz com que as pessoas se escondam, adiem a busca por ajuda, e cheguem ao diagnóstico tarde demais. "A primeira pergunta que recebo ao revelar o diagnóstico é sempre: você fumava muito?"
A dra. Lícia Zanol traduziu a história de Yane em dados e recomendações. O INCA estima que há 32 mil novos casos de câncer de pulmão por ano no Brasil, com 90% de relação direta com o tabagismo. Fumantes do sexo masculino têm risco 23 vezes maior de câncer; mulheres fumantes, 13 vezes maior. O problema central: 85% dos casos são identificados já em estágio avançado, quando as chances de cura caem para menos de 10%.
Pacientes entre 50 e 80 anos com histórico tabágico significativo precisam ser rastreados para câncer de pulmão. Anualmente esses pacientes devem passar por uma tomografia de baixa dose pra rastreio de nódulos ou massas suspeitas de câncer. O exame pode ser solicitado na Atenção Básica e, caso haja alteração, o paciente deve ser encaminhado a um especialista. O protocolo foi aprovado pelo Ministério da Saúde, com os 180 dias de implementação já vencidos.
A dra. Lícia encerrou com um tema ainda rodeado de tabu: os cuidados paliativos. Eles não são o sinal de que o médico desistiu, são um suporte iniciado desde o diagnóstico, para aliviar o sofrimento físico, emocional e espiritual em qualquer fase de doença que não tem cura. "Às vezes a gente não consegue acrescentar dias nessa vida. Mas a gente pode acrescentar uma vida melhor nos dias que a pessoa vai ter."
Alternativas para Cessação do Tabagismo
Palestrante: Dra. Maria Enedina, coordenadora da Comissão de Tabagismo da SBPT | Depoimento de paciente: Meire Souza
A última palestra do dia começou com Meire Souza, 60 anos, fumante há 40. "Na minha época, fumar era visto como status. Elegância, liberdade, aceitação social." Hoje ela caminha com dificuldade, cansa com facilidade. E ainda luta para parar de fumar.
"Muitas pessoas pensam que é apenas parar de fumar. Mas para quem vive isso há tantos anos, não é simples. O corpo sente falta. A mente sente falta." Ela agradeceu à ABRAF pelos grupos de apoio e encerrou com uma frase que ficou no ar: "Eu luto pelo direito de respirar."
A dra. Maria Enedina Aquino Scuarcialupi reforçou que tabagismo é uma doença, mas tem tratamento. Quem fuma não é fraco, mas, sim, dependente de uma substância mais potente que a cocaína, que a indústria reinventou nos cigarros eletrônicos para ser ainda mais rápida e mais viciante.
“A indústria do tabaco avançou, o mundo evoluiu, a tecnologia evoluiu, só que a gente, enquanto sistema de saúde, parou um pouco no tempo, e isso está dificultando o tratamento”. Segundo a médica, o tratamento efetivo é uma combinação, não uma receita única: abordagem intensiva e em equipe, farmacoterapia quando indicada, aconselhamento breve e universal.
O SUS oferece um programa estruturado, com tratamento gratuito. Apenas 5% dos fumantes conseguem parar sozinhos; com suporte adequado, os programas chegam a 50% de sucesso. Duas drogas foram desenvolvidas para agir no receptor de nicotina no cérebro: a vareniclina e a citisina; elas existem foram do país, mas no Brasil não estão disponíveis.
A dra. Maria Enedina terminou com um chamado direto ao Legislativo: "a maior causa de morte evitável do Brasil precisa das melhores ferramentas disponíveis. E a gente ainda não as tem".
O Fôlego Que Fica
O simpósio "O Fôlego da Vida" foi encerrado com palavras emocionadas da equipe da ABRAF. Iara Machado, presidente da ABRAF e paciente, e Flávia Lima, ex-presidente da ABRAF, estavam ali para dizer, ao auditório cheio, que vale a pena continuar.
"Estou muito orgulhosa de vocês. É uma pauta importante. Muito bom ver esse auditório cheio. Sigam em frente."
O dia reuniu mais de 130 pessoas presencialmente, entre pacientes, familiares, estudantes de medicina, parlamentares, médicos, representantes do Ministério da Saúde, do Corpo de Bombeiros e da iniciativa privada, além de todos que acompanharam ao vivo pela TV Câmara. Os participantes vieram de Goiás, do Distrito Federal, do Rio de Janeiro, da Bahia, de São Paulo, de Pernambuco.
Para muitos deles, chegar ali exigiu planejamento, esforço e coragem. E vai exigir recuperação nos dias seguintes. É por isso que a ABRAF existe: para que esse esforço valha a pena. Para que cada história contada num auditório do Congresso se converta em lei, em protocolo de tratamento, em medicamento disponível no SUS, em diagnóstico feito a tempo.
O fôlego de cada paciente que esteve presente naquele dia é a razão de todo o trabalho que vem antes e depois de um evento como este. E ele não para aqui.
Um dia como este só é possível com quem acredita na causa antes mesmo de vê-la acontecer. A ABRAF agradece à Chiesi, à Sanofi e à GSK pelo apoio e pela confiança que tornaram este seminário realidade. É essa parceria que nos permite levar a voz dos pacientes a espaços onde ela precisa ser ouvida.
Sobre a ABRAF
A ABRAF é uma associação de pacientes que atua no amparo direto, em comunidades de apoio e em advocacy junto ao Poder Legislativo, ao Executivo e às sociedades médicas. Se você ou alguém que você conhece vive com uma doença cardiorrespiratória, entre em contato com a nossa Central do Pulmão e do Coração.













