Débora Lima representa pacientes cardiorrespiratórios no debate nacional sobre Insuficiência Cardíaca.
No dia 10 de junho de 2026, Débora Lima, Vice-Presidente da ABRAF, participou como palestrante e debatedora no webinar Insuficiência Cardíaca: um risco para Diabetes, Hipertensão, DPOC e outras CCNTs, promovido pelo Fórum de Condições Crônicas Não Transmissíveis (Fórum CCNTs).
O evento reuniu cardiologistas, pesquisadores, representantes do Ministério da Saúde e lideranças do terceiro setor para debater prevenção, diagnóstico precoce, tratamento e cuidado integral da insuficiência cardíaca (IC), condição que afeta aproximadamente 2 milhões de brasileiros e representa um dos maiores desafios do sistema de saúde do país.
A ABRAF agradece ao Fórum CCMTs pelo convite, em especial a Mark Barone, pela iniciativa de manter essa discussão ativa com tanta seriedade, rigor e comprometimento com a melhoria real do cuidado em saúde no Brasil. Espaços como este, que reúnem ciência, gestão pública e a perspectiva de quem vive com a doença, são fundamentais para que as mudanças de que o país precisa deixem de ser apenas promessa e se tornem realidade na vida dos pacientes.
Uma emergência cardiovascular silenciosa
O evento abriu com um painel de dados que evidencia a gravidade da situação. Ana Petri, diretora de assuntos corporativos da Viatris Brasil, apresentou os números que definem a IC como emergência silenciosa no Brasil: mortalidade intra-hospitalar de 12,6%, mais que o dobro dos índices americano e europeu, 27,7% de mortalidade pós-alta e 44% de readmissão hospitalar.
Estudos com dados do DataSUS estimam que cerca de 54 mil casos de IC por ano deixam de ser registrados como tal, e que até 200 mil óbitos anuais podem estar relacionados à doença sem serem codificados corretamente. Os custos no SUS ultrapassaram R$ 3 bilhões em 2019.
Ana Petri também levantou uma questão que permeou todo o debate: o Brasil ainda não possui portaria ministerial, resolução de conselho ou diretriz que estabeleça padrão mínimo de estrutura, processo e resultado esperado para o tratamento da IC. "Sem parâmetros, a gente não tem como ter uma definição do que é esperado", alertou.
IC como marcador de multimorbidade
A Profa. Dra. Ana Carolina, docente de enfermagem da UFMG, aprofundou o olhar epidemiológico. A IC não é uma doença isolada: é o estágio final do descontrole acumulado de doenças crônicas, onde hipertensão, diabetes, obesidade, doença renal crônica e DPOC são suas principais portas de entrada. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde mostram uma prevalência de 1,7% na população adulta brasileira, chegando a quase 4% em pessoas acima de 60 anos. No mundo, o GBD 2021 registra 55 milhões de casos, o dobro do que havia 30 anos atrás.
A professora também apresentou o projeto Clínico Ampliado da UFMG, desenvolvido em uma UBS de Belo Horizonte, com acompanhamento longitudinal de idosos por equipe multiprofissional, como exemplo de como a universidade pode apoiar a atenção primária na prevenção da progressão da doença.
O poder do diagnóstico precoce
Um dos pontos mais impactantes do webinar veio da Dra. Silvia Moreira Ayub, médica assistente da Unidade de IC e Transplante do InCor/USP. Segundo ela, entre 25% e 40% dos pacientes diagnosticados precocemente conseguem reverter completamente a disfunção ventricular e esse percentual de recuperação depende diretamente do tempo: quanto menor a duração da IC no momento do diagnóstico, maiores as chances de o coração voltar a funcionar normalmente.
"Além de prevenir os fatores de risco, a gente tem que fazer um seguimento próximo para detectar a disfunção ventricular antes que ela se torne muito grave", destacou Dra. Silvia. Ela também apontou uma falha estrutural relevante: a ausência de um nível intermediário de atenção cardiológica faz com que pacientes da atenção básica cheguem diretamente aos centros de altíssima complexidade, sobrecarregando o sistema e atrasando o cuidado.
Tratamentos que mudam histórias quando chegam ao paciente
O Prof. Dr. Múcio Tavares, chefe da Unidade Hospital Dia do InCor/USP, apresentou a evolução notável do tratamento nas últimas décadas: a mortalidade em cinco anos caiu de 89% para 40%. Com o uso combinado de betabloqueadores, inibidores do sistema renina-angiotensina, sacubitril/valsartana e os iSGLT2 (dapagliflozina e empagliflozina), pacientes de 55 anos ganham, em média, 8,3 anos de vida a mais. Ambas as últimas classes já estão incorporadas ao PCDT do SUS.
Porém, Dr. Múcio foi preciso ao nomear os obstáculos reais: existe um gap entre a diretriz e a disponibilidade no território; outro entre a disponibilidade e a prescrição correta; e um terceiro entre a prescrição e a adesão do paciente. Sua proposta: programas institucionalizados de IC nas UBS, com papéis definidos para médicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas e psicólogos que sobrevivam à rotatividade dos profissionais. "Quando o próximo profissional entra, ele já assume um papel pré-estabelecido", defendeu.
A atenção primária como espaço de prevenção e cuidado
O Dr. Denis César Coelho, da Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia, trouxe um modelo concreto em funcionamento: a planificação da atenção à saúde, desenvolvida em parceria com o CONAS, que posiciona o especialista não mais atrás do consultório, mas como tutor do médico da APS discutindo casos juntos, fazendo educação médica continuada, tratando o paciente como um todo e não como uma lista de doenças fragmentadas. Os resultados incluem redução de internações por IC, melhor controle glicêmico e pressórico, e menos descompensações.
"A gente tem que tirar o especialista de trás da cadeira do modelo de consultação", resumiu Denis César, defendendo o terceiro setor como ator estratégico nessa reorganização do cuidado.
O que o Ministério da Saúde está construindo
Carmen Moura, coordenadora geral da atenção especializada do Ministério da Saúde, apresentou os avanços recentes na política pública. A Política Nacional de Atenção Especializada, publicada em 2023, colocou a cardiologia entre as primeiras prioridades. O programa Agora Tem Especialistas já disponibiliza seis Ofertas de Cuidado Integrado (OCIs) para IC na tabela SUS, com protocolos de encaminhamento e novo modelo de financiamento orientado a resultados.
Carmen reconheceu os desafios históricos, lacuna no nível secundário de atenção, desigualdades regionais, fragmentação do cuidado e reforçou que a solução passa inevitavelmente pelo território. "É muito mais barato para o sistema de saúde fazer prevenção e diagnóstico precoce do que tratar pacientes já em estágio avançado", disse.
A voz dos pacientes: Débora Lima e a ABRAF no centro do debate
Débora Lima foi a representante de pacientes no painel e trouxe ao debate aquilo que nenhum dado epidemiológico é capaz de capturar sozinho: o que é viver com uma doença que tem a insuficiência cardíaca no seu horizonte.
"Quando você é diagnosticado, é como se fosse catapultado para outro planeta. Tudo o que você aprendeu a fazer ao longo de uma vida agora é diferente. E você teve 15 segundos para assimilar isso", descreveu Débora, falando tanto de sua própria experiência com hipertensão arterial pulmonar quanto dos relatos de milhares de pacientes que chegaram à ABRAF nos últimos anos.
Ela apresentou o impacto da IC em múltiplas dimensões da vida: a hipervigilância constante, o medo noturno de não acordar, o estigma da doença invisível numa sociedade que mede valor pela produtividade, e o isolamento social que acompanha as limitações físicas. "A gente tem que entender que o sofrimento atravessa o paciente como um ataque de flechas, ele vem de vários lugares ao mesmo tempo."
Nos últimos cinco anos, a ABRAF acolheu mais de 2.600 pacientes com condições cardiorrespiratórias em sua Central do Pulmão e do Coração: um espaço de escuta qualificada, com psicóloga, em linguagem acessível e com o tempo que o consultório médico raramente oferece.
"A gente não pode morrer antes de fato morrer. Existe um espaço entre o diagnóstico e o desfecho, e dentro desse espaço há conquistas para serem vividas, novos caminhos e novas possibilidades", afirmou Débora.
A Vice-Presidente da ABRAF apresentou o modelo de atuação da organização em três níveis:
- Individual: acolhimento personalizado com psicóloga, em linguagem acessível, pelo tempo que o paciente precisa;
- Coletivo: grupos de apoio onde pacientes se reconhecem, compartilham experiências e encontram novos sentidos para a vida;
- Sistêmico: advocacy baseado na perspectiva real de quem vive a condição, com o protagonismo do paciente como ponto de partida para influenciar políticas públicas.
Mensagens para pacientes, médicos e a sociedade
Para pacientes e famílias
Conhecer a doença reduz o sofrimento. Entender o que causa a IC, o que a medicação faz, como o coração funciona... tudo isso retira a sensação de estar "vendado na beira de um penhasco". Grupos de apoio são parte do tratamento. Quanto mais informado e acolhido, mais o paciente adere ao cuidado e melhor é sua qualidade de vida.
Para profissionais de saúde
O cuidado multidisciplinar é insubstituível. Questões de nutrição, fisioterapia, saúde sexual, saúde emocional e uso correto das medicações não cabem apenas na consulta médica. Enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas e psicólogos são parte do tratamento e fazem diferença concreta nos desfechos. O diagnóstico precoce, reforçado por toda a equipe, é o que pode reverter a disfunção ventricular e mudar a história natural da doença.
Para a sociedade e os gestores
Pacientes com condições pulmonares como hipertensão pulmonar, fibrose pulmonar e DPOC, condições que a ABRAF acompanha diretamente, chegam muitas vezes tarde demais aos centros de referência. Quando a IC já está muito acentuada, cirurgias e transplantes que seriam possíveis deixam de ser opção. Investir em linha de cuidado integrada é, antes de tudo, salvar vidas. Débora fez um apelo especial para que esse olhar alcance as regiões Norte e Nordeste, ainda subatendidas e subnotificadas nos dados nacionais.
A ABRAF segue na luta
A participação da ABRAF no Fórum CCMTs reafirma o compromisso da organização com a representação qualificada dos pacientes nos espaços onde as decisões são tomadas: da clínica à política pública. O debate desta edição aponta caminhos concretos: diagnóstico precoce, cuidado multiprofissional, integração entre atenção primária e especializada, e comunicação em saúde que respeite a dignidade e o protagonismo de quem vive com doenças crônicas complexas.
A ABRAF continuará presente nesses espaços, com a certeza de que a voz do paciente é o mais potente instrumento de transformação do cuidado em saúde.
Sobre a ABRAF
A ABRAF é uma associação de pacientes que atua no amparo direto, em comunidades de apoio e em advocacy junto ao Poder Legislativo, ao Executivo e às sociedades médicas. Se você ou alguém que você conhece vive com uma doença cardiorrespiratória, entre em contato com a nossa Central do Pulmão e do Coração.













